quarta-feira, abril 25, 2007

Devolve-me.
Devolve-me o que te dei, hoje não te daria a metade.
Devolve-me os sonhos, quero vivê-los noutro espaço.
Devolve-me o que disse, as palavras passaram do prazo e soam ridículas quando lembradas aos meus ouvidos.
Devolve-se as ilusões, quero-as minhas para me poder desiludir.
Devolve-me os rostos, aqueles que passavam na cegueira que os ignorou.
Devolve-me as memórias, deixa-as ser só minhas para as poder queimar no fogo das minhas noites.
Devolve-me o olhar, aquele que só em ti se focava e que agora quer ver mais além.
Devolve-me o silêncio, quero preenchê-lo com outros sons.
Devolve-me a confiança, a que sentia na segurança do teu olhar e que não mais voltou a aparecer.
Devolve-me a saudade, preciso de senti-la por outros.
Devolve-me as lágrimas, as que corriam pela dúvida e que com a dor, e para maior dor, secaram.
Devolve-me o tempo, deixa-me acreditar que ele não passou.
Devolve-me o sono, quero adormecer o passado e matá-lo sem provas.
Devolve-me as ideias, aquelas que nasceram na minha mente através de ti e que agora apodrecem e contaminam as que querem crescer sãs.
Devolve-me os minutos, devolve-me as horas, devolve-me os dias, em que ocupaste a minha mente. Juntos dar-me-iam tempo suficiente para tudo o que não cabe na minha agenda.
Devolve-me os sorrisos, preciso deles para continuar.
Devolve-me a esperança, a que me fazia acreditar que era possível e me enganou.
Devolve-me tudo o que fui, deixa-me crescer com isso.
Devolve-me o amor, quero-o para mim.

Liberta-me.

Devolve-Me.

domingo, abril 22, 2007

Não sei o que quero...
Mas QUERO-O JÁ!

Estou com craving marcado de objectivas e exposições, de feltros e materiais, de escritas e dissertações, de esplanadas e conversas, de passeios e de praias... E esta mente não pára, germinado ideias científicas, artísticas, sentimentais e delirantes, cada uma mais estapafúrdia do que outra, mas que não se porquê me parecem tão possíveis!!
E aparentemente ninguém me acompanha o processamento mental deixando-me numa ilha de ideias promissoras e senis e, por uma qualquer razão que não me é possível identificar, só me ocorre WHO CARES?!
Faço, não faço?
Digo, não digo?
Vou, não vou?
Não encontro respostas mas isso também não interessa... Seja o que for, que seja !

sábado, abril 21, 2007

Stop the time

Abro mais uma vez o envelope. Barras de cinzentos denunciam horas de tinas e papel, “bolinhas” e guilhotina, luz e vermelho escuro. Recordo a ausência de tempo naquelas horas. Até os minutos dos líquidos são contados fora do tempo do mundo, enquanto bocadinhos de mim se imprimiam, como que por magia, e para meu grande espanto, ali aos meus olhos. Casas e centrais eléctricas nascem lado a lado com janelas complexas e candeeiros “cri(p)ticos”.
Calor vermelho, um stop, meio stop, uma volta e meia, meia volta, uma volta, a luz cega.
As melodias gritam alto durante o processo sem o processamento que exige o tempo que continua a passar lá fora, as vozes baixas partilham experiências, o espanto a cada volta e meia de cinzentos mágicos. Ciclo a ciclo fica a necessidade urgente de fazer melhor e repete-se o irrepetível, com mais ou menos stops de tempo, com diferentes contrastes e outras máscaras.
E tudo é possível no pequeno intervalo de réguas do marginador… Posso iluminar as trevas ou escurecer as luzes, posso mudar a realidade que pensava ter visto e registado.
Não posso deixar de pensar que é inútil e ridículo reduzir a experiência verdadeiramente experiêncial a um conjunto de palavras, ou, como diria Whitaker:

“Anything worth knowing can’t be taught…

It must be experienced!”


E no entanto, este é o meu reconhecimento, da minha aventura nas luzes dos cinzentos, onde tudo é possível, e a quem, subtilmente, me conduziu através do caminho cíclico que vai do negativo à última imagem de todas, quem guarda o olhar crítico e deixa aprender e espantar com as pequenas coisas ainda muito imperfeitas, quem diz “eu dava mais um stop” como quem faz sugestão ao invés de determinar a solução.

Entre canções e rapazes brancos, silêncios, palavras, stops, voltas, luzes que doem, luzes que criam o impossível, entre cinco paredes que deixam o tempo lá fora, nascem imagens que são minhas desde que as vi e até que as coloco no envelope.



The time has stopped.
We’ve stopped the time.
I’ve stopped the time.

domingo, abril 15, 2007

(A Menina e a Sombra)

Quando o nosso pensamento se restringe a um ou outro assunto, torna-se difícil escrever sobre outras coisas, e até reparar nelas! Mas este fim-de-semana dei folga às reflexões impertinentes, impacientes e “impertigantes” e pude olhar a vida com outros olhos, com o olhar curioso e inquiridor de uma criança num lugar onde nunca esteve.
E de facto, dos meus saltos altos de “crescida” trepei estruturas de madeira e caminhei sobre pontes suspensas, correndo com os meus amiguinhos de brincadeira para ver quem chegava primeiro ao baloiço. De lá, a perspectiva era diferente, mais alegre e genuína e as borboletas eram sentidas na barriga pelas razões certas.

Hoje apercebi-me de que, ultimamente, há várias pessoas na minha vida que e obrigam a fazer o que gosto. Com o meu locus de controlo externo em condições de cansaço e tédio existencial, vejo agora que se não me fizessem passear, fotografar, fazer nascer as minhas imagens pelo processo artesanal, construir as minhas pequenas obras de arte e mostrá-las ao mundo, se não me fizessem apreciar uma nova canção ou ver um filme interessante, provavelmente estaria enterrada no meu puff a lamentar-me por existir.

O estranho é que sei o que quero, para mim, para a minha vida, e no entanto, nem sempre me movo nessa direcção. E sento-me a estagnar com o riacho, a secar ao sol, lamentando-me pelo calor, mas sem me levantar para sair para a sombra. Acontece-me por vezes, quando me esqueço de ser e também fazer.

Felizmente que neste momento me faço rodear por pessoas persistentes que exigem mais e melhor, que me obrigam a gostar de viver e a fazer o que gosto! E sinto-me atolada em trabalho mas feliz e empenhada a gerar as minhas obras que um dia hão-de nascer. Faltam duas peças de mim ainda… Mas estão de férias hoje! É tempo de trabalhar!

O meu reconhecimento aos que me fazem levantar da cama todos os dias, ainda que por vezes acorde a pensar que vai ser “só mais um dia”, depois de adormecer com “o que poderá ser”, ou, mais frequentemente “o que poderia”…

quinta-feira, abril 12, 2007

Pinto o mundo de rosa e verde, tentando por vezes um roxo ou laranja. Engano-me mais uma vez. E mais outra. Faço florir um canteiro num jardim abandonado de Inverno onde tudo é morte e solidão. Adormeço a pensar no que não vai ser e acordo a acreditar que é o dia em que tudo vai ser diferente. E continuo a criar flores e sorrisos para me esquecer de mim, esperando estupidamente, numa crença ilusória.
Amanhã vou encontrar o certo e fazê-lo.
Amanhã a duvida vai acabar.
Amanhã…
Será que amanhã vai ser diferente do hoje?
Amanhã o vermelho e negro vão doer menos?

E sorrateira a brisa transforma-se em rajada e espalha as folhas pelo chão, derruba a mobília pelo caminho, bate com as portas para as deixar abertas. Será já tempo de as fechar e deixar o vento seguir o seu caminho?!
Esperar mais uns dias… Quantos, quantos mais?!
A bagunça está já demasiado instalada para permitir a vida nesta casa…
Já não há visitas nem curiosos, o estuque cai sobre os tapetes desbotados, o soalho range, há fendas na parede que deixam passar o frio e o vento. E pinto as paredes de verde e rosa, contra o tempo e contra o vento.
É melhor deixar seguir.
Amanhã.
Fechar as portas.
Mais uns dias.
Esquecer.
Queria tinta rosa e verde.

segunda-feira, abril 09, 2007

Alguém anda a sabotar os pózinhos do João Pestana!... Já não são horas para pensar nem para querer fazer coisas… É de noite!!! Os níveis de malatonina já se deviam estar a adaptar ao escuro do meu quarto e eu devia TER SONO!!
Mas não… Ontem apetecia-me dançar e hoje é o raio das ideias para criar! E como não há feltro para mais malas, hoje estou com as flores…Eu tento, tento… Deixo o trabalho a meio, para tentar dormir, mas depois sempre as mesmas ideias, sempre as mesmas pessoas, sempre as mesmas dúvidas… Ou as ideias mudam, ou a minha vida muda, ou vou atacar as benzodiazepinas!
E até estou contente hoje…. Consegui fotografar como há muito não fazia… Embrenhei-me na multidão, de escudo Nikónico à frente, e consegui bons ângulos, boa luz, concentração…. Há meses que não conseguia fotografar com tanta concentração! E aquele som tão típico da reflex que me fazia subir a adrenalina por ter conseguido um “momento decisivo”! Shutterbabe is back!!! :D Finally!
E muito chá de camomila depois, aqui continuo eu à espera nem sei do quê… Talvez se alguém decidisse por mim e a resposta caísse do céu e podia viver feliz para sempre até à próxima dificuldade! Mas por que razão temos que dormir?! Ah é verdade! O Neurociências dizia que ainda não se tinha descoberto o porquê mas que sem dormir não se sobrevive… Raio da condição Humana!
É que nem escrever decentemente consigo, o que já seria uma forma de arrumar ideias. Mas não! Dou nos feltros, dou na música e dou nos pozinhos do João Pestana que devem ser placebos! Vou passar a ir comprar “ao Zé”.
Bem, e não é que o Derek voltou outra vez a trocar a Meredith pela ex?! É que não há paciência para os homens! Não sabem o que querem e depois dão justificações à posteriori do tipo “ela é minha mulher”! DUH! Há mínimos!
O trabalho a acumular e eu nisto… Ai a minha vida… Será que não posso tirar férias de mim própria!? E viver assim despersonalizada por uns dias?! Como diria o Jesse “eu não posso ver um filme sem estar lá na audiência”, é mesmo natural que as pessoas se fartem delas próprias, passam uma vida inteira juntas!
Daqui a umas horas é mais um dia… E a música que está memso boa!
Mas tenho que ir...

Até já!

sexta-feira, abril 06, 2007

"De súbito, deixou de existir! Caiu de rompante a certeza de ser um sonho! Não foi interpelado, não encontrou velhas memórias, não roçou novos caminhos da vida! Simplesmente imaginara, talvez por pressão do desejo! Estava atordoado mas com lucidez suficiente para perceber que não acordara com suores como nos pesadelos, mas sim com um ruído: o toque do telémovel. procurou-o na mesa mas não chegou a tempo... levantou-se do sofá onde se tinha deitado a espairecer o fim de tarde, e agora, com fome, pensou que o jantar lhe tinha telefonado bem a horas...

Sonhara com anseios seus, mas continuava a ser quem era... e como isso o incomodava, e como isso lhe pesava! Decidiu ser mais expedito e levantou-se, pegou na carteira e saiu de casa! 10 minutos para uma pizzaria e lá estava a comunicar com a dificuldade envergonhada do costume. - Queria que me entregassem uma pizza em casa - dava tempo de ir até ao multibanco - é nesta rua, no número 73, lá em baixo perto dos Correios!

- Em que nome fica?
- Zé!
- ... hmm... Sr José, posso saber o seu último nome?

- Pode - corou - Zé Ninguém!"
(Alcor)


Ninguém era apelido, mas não dos pais que os não tinha, e no entanto, sempre se conheceu assim... Ninguém… A senhora da pizzaria iria esquecê-lo 10 minutos depois do pedido, tal como o senhor dos correios, o do talho e a da mercearia… Como já tinham esquecido antes os outros funcionários de pizzarias, correios, talhos e mercearias de outros lugares.

Era por isso que Ninguém tinha comprado um telemóvel. De casa em casa queria ter a comodidade portátil de satisfazer as suas necessidades, sem nomes nem caras que não podia recordar e que, verdade seja dita, o assustavam com a sua presença física.

Neste lugar, Ninguém existia quase sem se notar…. Movia-se do banco de jardim, onde se sentava de dia ou de noite, olhando para um jornal que alguém abandonara, mas sem reparar no que estava escrito, para o seu quarto vazio e sujo da pensão do povo. Adormecer depois de uma garrafa de whisky, com os flashes da televisão sem som, era a melhor parte do dia. Era um alívio deixar temporariamente de existir, ainda que não tivesse consciente disso. Quando acordava, a sua existência era uma realidade e o desejo era o de poder adormecer de novo… Várias vezes tentou, tomando comprimidos para dormir que o deixavam atordoado por várias horas, mas nunca o suficiente para o descanso eterno. A sua existência consumia-o e impedia-o de se matar. E era isso que mais o corroía, condenado a penar pelo mundo, sem sentir o cheiro do mar ou das flores de Primavera, nem o sabor doce das tabletes de chocolate que ingeria apressadamente, a horas variáveis do dia, deixando os papeis espalhados pelo quarto. Não tinha nada de que se alegrar e ao mesmo tempo não havia coisa alguma no mundo que o comovesse. Já nem era capaz de acabar com a sua própria vida… Quantos anos mais deambular preso no seu próprio corpo?!

Ninguém no mundo o tem como amigo e ele próprio desistiu de tentar conhecer as pessoas muito cedo na vida.

Afinal nunca tinha vivido. O baque súbito da certeza que o acordara há minutos atrás era apenas a confirmação de uma existência de muitos anos em que nunca tinha vivido. Ninguém o esperava, à noite, quando chegava a casa. O seu telefone apenas recebia chamadas de publicidade ou de algum empregado avisando da chegada da sua refeição ou das camisas prontas na lavandaria. Não tinha caixa do correio nos quartos das pensões e também não precisava pois as contas passavam por baixo da porta. Ninguém sabia onde estava. Ninguém sabia quem ele era. Ele não sabia quem era. Ele não estava vivo.

No entanto, também não estava morto e mesmo a sua existência era duvidosa já que ninguém a podia provar. Apesar disso, à noite, na sua cama de lençóis encardidos, deitava-se no escuro e quando isso acontece deixa-se de sentir o corpo. E aí ele tinha certeza. Existia um ser pensante nele. Era a única coisa certa no mundo. Era isso que o colocava muito perto da morte, mas num “entre” que não o deixava dar o passo seguinte. Estava condenado a existir dentro dele próprio.
Tinha dinheiro para mais uns anos de existência, resultado do seu trabalho nos arquivos bolorentos de um tribunal. Durante três décadas na mesma cave sem janelas, era contactado pelo telefone para colocar as pastas no elevador que seguiam o seu destino. Nunca ninguém soube o seu nome, e não era necessário, as pastas chegavam sempre ao seu destino.

“Levanta tudo!” Não estava habituado a tais abanões no seu corpo, o que se estava a passar?

“Não te faças de parvo Zé Ninguém!! Passa para cá o guito!”

Não se lembrava de ter dito o nome àqueles sujeitos encapuzados e de navalha na mão, mas a proximidade com estas pessoas estavam a fazê-lo perder o controle. Gritavam, apertavam-no mas ele não se conseguia mexer. Desejava que deixassem as ameaças e que espetassem lentamente a faca nas suas vísceras para que pudesse sentir a morte a chegar lentamente, apercebendo-se de cada sentido que ia perdendo, de cada órgão que parava, para poder ter a certeza de que desta vez ia acabar o encarceramento. Mas uma morte muito lenta poderia dar tempo a alguém de o ajudar, e ter que ir numa ambulância com várias pessoas perto dele tentando salvar uma vida que nunca o foi, só essa ideia já o assustava. Não, seja uma morte rápida. Mas seja.

E a navalha tinha já lambido o seu pescoço com o seu fio aguçado, e o sangue formava uma poça em seu redor na praça da vila, os seus olhos estavam fechados e já nada viam, o seu coração tinha parado. E no entanto, nenhuma dessas alterações foi sentida, como se a morte fosse mais do mesmo e não propriamente o descanso final pelo qual ansiava. O seu corpo jazia no chão ignorado pelos passos apressados dos transeuntes da praça. Estava morto.

Foi Ninguém.
Morreu ninguém.

(Pediram-me para acabar a história de forma trágica... Quando olhei para o relógio tinha passado uma hora é nem dei conta do meu estômago me estar a pedir a segunda ceia...)

terça-feira, abril 03, 2007

- Em que estás a pensar agora?!
- Em nada.
- Nada?
- Só na música… empty mind… tabula rasa…


Pequenos momentos em que o tempo desaparece e com ele, todas as coisas menos boas da vida… Não, naquele momento não estava “preocupada”. Quase que poderia dizer que nem eu ali estava porque o tempo não existia, mas estaria a mentir. Depois da lua quase gorda nos ter seguido, naquele nascer do sol só existia uma essência de mim, a parte que apenas sente, que sonha, que voa, cansada mas sem sono, no calor do silêncio das palavras e da melodia d’As canções.
Mas os ciclos trocaram-se e é quando o sol se ergue e abro a porta, que o relógio recomeça o seu tic-tac, doendo a cada segundo. Corro, deixando os pesos pelo caminho, enfio-me dentro da cama, tapo a cabeça. É de noite outra vez.