quinta-feira, agosto 16, 2007

O calor solitário de uma casa que dorme. Corpos espalhados, quietos, adormecidos, escondidos do sol que já ia alto. Aquela vontade de encontrar um lugar que sinta meu e que não se encontra verdadeiramente sob os efeitos alucinogénios das luzes e sons. Agarro na primeira câmara que encontro na mesa e saio em direcção às falésias. E os meus pés de chinelo movem-se pelos grandes arenitos, através dos arbustos de camarinhas e os sedimentos férreos que se soltavam arriba abaixo. Acompanhada pelos gritos das gaivotas e os sons ténues das ondas que rebentavam nos penhascos, a minha voz tomava forma, sem que a conseguisse parar….
I don't know why
But I cant seem to find the right melody today
I can't make the words fit how I feel
A meio desta caminhada quase mística, apercebo-me mais uma vez de que “tudo é como deve ser”, tal como a Noite na Selva Aguaruna. Tudo está no seu lugar, num equilíbrio imperturbável. Sinto-me mais uma vez lisonjeada por poder assistir ao espectáculo da natureza. À imponência das encostas escarpadas, aos voos acrobáticos das gaivotas barrigudas, às flores selvagens ondulando ao vento.

I woke up from the strangest dream
With a dancing dog and a beauty queen
They said nothing, nada, niente
I'm empty

Viagens no tempo que não consigo evitar e que me fazem sentir um pouco mais a pertença a este mundo. Não assumo todas as culpas por esta fuga. Há algo que me continua a empurrar na busca do meu lugar. Este é mais um que fica tatuado na minha alma desenraizada e meio vazia. “Para onde caminhamos nós? Sempre para casa!” (Novalis).
Apercebo-me que já passou muito tempo e regresso pelo mesmo caminho, embora os passos comecem a apressar-se à medida que vou caminhando. Abro a porta. A casa já tinha acordado e assustam-se os rostos com a minha chegada sem saída anunciada. Segue-se um dia de praia, risotas, parvoíces, álcool, luzes, canções, corpos dançantes e um sono sem sonhos, que me fazem esquecer, momentaneamente, a procura e o vazio.


Voltamos todos à falésia, numa caminhada em que me desprendo das conversas e me perco numa nova contemplação. O regresso à realidade faz-se num lanche entre arbustos e escarpas, em toalhas empoeiradas que servem de cama à sesta vespertina.




Perdidos em olhares, gargalhadas e muita, muita partilha, fugimos do mundo quotidiano das nossas, mais ou menos, preenchidas vidas. E como é bom acordar assim para dias totalmente feitos por nós e para nós, dias que só acabam no dia seguinte, tendo o pôr-do-sol a marcar o meio das horas.



Regresso e parece que o tempo não passou. Tudo aqui está na mesma. As saudades nossas são muitas. Valeu a pena.



(Música by Skye Edwards; último pds, By Ema)

2 comentários:

Ana Cristina disse...

Verdadeiro...Lindo...
é só o que digo;-)

Obg por este post!

Bjs

Mar disse...

Belas fotos, excelentes relatos :)
Lindo, lindo!